segunda-feira, 28 de março de 2016

Portinhol? / Portuguish?

[English version at the end]

Há tempos que me debato com esta questão. Será mesmo obrigatório um português entender e falar espanhol? Dizem-me que sim, mas eu não tenho assim tanta certeza.
Não sou linguista, mas sei que, de facto, a língua portuguesa tem mais sons do que a espanhola, o que nos permite uma certa flexibilidade. Mas será assim tanta? Admito que possa explicar o porquê de um português perceber melhor um espanhol do que vice-versa.
Lembro-me de quando comecei a aprender espanhol. Era eu um dos escassos cidadãos portugueses que diz não falar espanhol e nem sempre perceber.
Começava a minha pós-graduação em Interpretação de Conferências. Tinha sido aceite com Inglês e Francês como línguas C, mas precisava de mais uma língua para concorrer às Instituições Europeias. Disse-me o coordenador do curso, britânico, que, sendo eu portuguesa e tendo que aprender uma língua depressa, teria de ser o espanhol.
Já era cética, quanto a saber automaticamente espanhol por ser portuguesa, mas ainda tive algumas surpresas. Ai, os falsos amigos... E logo num primeiro discurso que tive de interpretar em consecutiva, surgiu a expressão «sin embargo». Temos a expressão «sem embargo», mas juro que, até então, nunca a tinha ouvido e só conhecia o embargo como, por exemplo, embargo económico. Bem, como me diziam para me «apropriar do discurso» foi o que fiz e inseri o «embargo» num contexto que nada tinha que ver com embargos. O resultado não foi, digamos, brilhante.
Desde essa altura que me dediquei ao espanhol e que me choca continua a ser essa ideia de que os portugueses ou, por outra, os lusófonos, sabem automaticamente espanhol.
Percebo que portugueses entendam mais ou menos castelhano, já que no único país com que fazemos fronteira e a que chamamos irmão o castelhano é língua oficial.
Percebo que os brasileiros saibam bastante bem espanhol, dada a sua localização na América Latina.
Mas será que moçambicanos, angolanos, timorenses, etc. terão a mesma «dita» capacidade?
Não me parece. Mas, como digo, é uma questão com que me confronto muitas vezes, sobretudo por parte de colegas de profissão estrangeiros.
A resposta já se começa a configurar. Nunca viram conferências com duas cabinas de português? Uma para português europeu e outra para português brasileiro? Ora aí está.
Se já começam a existir tantas diferenças entre uma e outra variante do português, a que propósito terão os lusófonos de entender automaticamente espanhol? Se vos parece ridículo fazer-se a distinção, imaginem que estão numa conferência de agricultores e que o vosso público é português, moçambicano e brasileiro. Agora, traduzam lá «farm»...

***

I've been battling this issue for a long time now. Is it really mandatory for a Portuguese citizen to understand and speak Spanish? I'm told it is, but I'm not so sure.
I'm not a linguist, but I know that the Portuguese language does have more sounds than the Spanish language, and that gives us a bit more flexibility. But is that enough flexibility? I must admit that it can explain why Portuguese people understand Spanish better than the other way around.
I remember when I started learning Spanish. At the time, I was already one of the few Portuguese people that says they don't speak and don't always understand Spanish.
It was at the beginning of my Masters in Conference Interpretation. I had been admitted wiht English and French as C languages, but I needed one more to be able to work for the European Union institutions. The master's coordinator, who was British, told me that as I was Portuguese and needed to learn a new language quickly, it had to be Spanish.
I was already ceptical as to the notion that all Portuguese people automatically know Spanish but still, I had some surprises. Oh the false friends... And then, in one of the first Spanish speeches I had to interpret in a consecutive, there was the expression «sin embargo» (nonetheless). We do have the same expression «sem embargo» with the same meaning but I sware that until then I had never heard it and only knew the meaning of embargo as for example, economical embargo. Well, as they were always telling me to make my own speech, I did it and I inserted the «embargo» in a context that had nothing to do with it. You can say the result was not brilliant.
Since then I've been dedicated to learning Spanish and what shocks me is still this notion that Portuguese people or, better yet, Portuguese-speakers automatically know Spanish.
I understand that Portuguese people more or less understand Castilian, because the only country bordering ours is Spain, our so-called brother country, and they have Castilian as an official language.
I understand that Brazilian people know Spanish pretty well, as they are located in Latin-America.
But do Mozambican, Angolan, Timorean and other Portuguese-speaking peoples have the same «so-called» ability?
I don't think so. But, as I say, it's an issue which I frequently face, mainly from my foreing colleagues.
The answer already begins to rise. Haven't you ever been in a conference with two Portuguese booths? One for European Portuguese and other for Brazilian portuguese? There you go.
If there are now so many differences between these two Portuguese languages, why should any Portuguese speaker automatically understand Spanish, which is an entirelly different language? If it seems ridiculous to distinguish both Portuguese languages, picture yourself in a farmers' conference, where your listeners are Portuguese, Mozambican, and Brazilian. Now go ahead and translate «farm»...

Michelle MV Hapetian

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